ASAS
Asas do vento,
Asas do meu tempo,
Asas da alma!
Asas!
As minhas asas!
Para que as quero?
Para alar meu corpo,
Banir amarras,
Soltar os laços,
Singrar outros mares,
Vencer percalços,
Alcançar o sol!
Mesmo que sejam de cera
As minhas asas,
Quero tentar,
Enfrentar...
Quero todas as asas
Para o amor aconchegar.
Preciso navegar,
Cavalgar o tempo,
Ser pássaro,
Ser sonho,
Ser sentimento...
Quero carpir
A vida em versos,
Deixar o casulo,
Ser dona do universo!
(Genaura Tormin)
ARQUITETA DE MIM
Vou reinventar a vida!
Fazer consertos,
Aplicar remendos.
Prenhe estou de disfarces
E esgueira-me pelo corpo
A plangência do tempo,
Restos de batalhas
Que se reiniciam sempre.
A incoerência dos retalhos
Fragmentam-se pelos dias.
Recolho os estilhaços.
Sou enigma no existir!
Fabrico fantasias e metáforas.
(Genaura Tormin)
PIROMANIA
Quero gritar
E me completar
No silêncio
Dos meus medos.
Fazer uma torre
Dos nervos rotos,
Calcinados,
Sangrados de desejos.
Contorcer as angústias,
Nos rodopios de bailados mortos,
Na loucura estridente,
Tão inclemente,
Dessa piromania
Que me embala,
Cala-me,
Mas me faz viver.
Quero mostrar
A úlcera do meu ventre,
O vazio do meu útero...
Quero ser fêmea presente
Incendiária de amor.
(Genaura Tormin)
CRISTAL QUEBRADO
Náufraga de sonhos,
Tenho saudades de mim mesma.
Guardiã estática
De uma performance em cacos,
Já não sei quem sou.
Quebrou-se o cristal!
Incendeiam-se restos de esperança,
Multiplicando a inércia dos instantes.
A solidão se faz...
Sonho frustrado.
Permito-me o impossível
Porque as portas me fascinam.
Vivo emoções do tempo que se foi.
Das derrotas,
Guardo o aprendizado.
Não fujo de nada!
Nada em mim petrificado está.
Há muito sentimento
Ainda.
Mergulho nos meus cantos,
Escudo-me na coragem,
Pois inteira sou
Para esta viagem seguir.
(Genaura Tormin)
NÃO TENHO ALGEMAS
Fui menina,
Rebelde, traquina, barulhenta...
Mulher hoje sou.
Laboriosa, complicada,
Parideira,
Dona de casa.
Ardo em orgasmos,
Arquejo em lágrimas.
Apolo me fascina,
Faz-me musa de seus versos,
Deusa do seu leito.
Sou refém das fantasias,
Atriz de todos os papéis.
Mostro-me catita,
Jogo a sedução
E acho-me bonita.
Os sonhos
Habitam meus cantos,
Ouriçam as entranhas.
Rendo-me aos desejos.
Aos detalhes
Entrego-me inteira,
Na busca de mim mesma,
Pois não tenho algemas
Nem porteiras.
(Genaura Tormin)
LUTO
Não há conserto
Para tanto desmantelo,
Nem oficina
Achará o defeito.
Inútil!
Nada a fazer!
Ciclo encerrado,
Porta fechada.
Tudo arqueja no tempo,
E o relógio não para.
As mãos seguem vazias,
E por companhia,
Um passeio fúnebre
Conta a história,
Em desbotada policromia.
Foram-se os devaneios,
A lira, a fantasia,
Os versos e a canção.
Luto é o que resta.
Morto está o CORAÇÃO!
(Genaura Tormin)
ALFORRIA
Tenho que reinventar a vida
Para espantar o medo,
Aprisionar a agonia.
Vou decretar alforria
Para a solidão!
Não a quero por companhia!
Prefiro o vento, a brisa,
Mistério, magia,
E os enlevos de ventania.
Quero um vendaval de sorrisos,
Escancarados, atrevidos,
Para gargalhar a vida!
Quero esquecer a saudade,
Na conquista da alegria.
Tenho que encontrar saída,
Para não acelerar
O relógio do tempo.
Não quero a vida vazia!
Estou pedindo alforria!
(Genaura Tormin)
POEMA RECLUSO
No horizonte,
Moribundo se curva o sol poente.
Um dia a mais passou sem que eu te visse.
O poema recolheu-se medroso
Ao frio de minha tristeza.
Tudo extremamente só!
Os momentos se arrastam
E a nossa música agoniza,
Chegando a ferir os meus ouvidos.
Há um marasmo no ar.
Um gosto fúnebre,
Uma carência dolorida.
Tudo tão eterno, feito a saudade tua.
Não há aroma de flores,
Nem cantar de pássaros...
O vento está parado,
Nem sibila a ramagem lá fora.
Apenas a companhia de fantasmas.
Parece o fim!
Faz frio na alma,
E congelado está o amor
Nos compartimentos de mim.
(Genaura Tormin)
O QUE RESTOU DE TI
Caneta entre os dedos,
Tento escrever.
No papel imaculado,
Aparece a estampa do teu rosto.
Nada consigo redigir.
Nada me vem à mente.
O peito em ânsia,
O cérebro em desconexo,
Eu aguardo aflita.
O teu sorriso para extasiado.
Quero retê-lo assim.
As mãos em brasa,
Andejas, buliçosas,
Sentem-se trêmulas
Desde o último afago.
O pêlo macio,
O cheiro másculo,
O rosto trigueiro,
O olhar travesso
A passear por minhas curvas,
Ainda habitam em mim.
Preciso escrever,
Materializar o que restou de ti.
(Genaura Tormin)
SOU CRIANÇA
Ainda não sei
Quem realmente eu sou.
Nasci menina traquina,
Em meio à ventania,
Numa manhã de julho.
O vento
Lambia a poeira dos caminhos,
Subia às colinas
E ouriçava a copa do arvoredo.
Por isso nasci sem medo!
Gosto-me assim!
As estradas foram-se esgueirando
À minha frente.
E eu as segui resoluta,
Firme, contente.
Hoje sou coragem!
Sozinha, carrego a bagagem.
Sei também ser ousada,
Atrevida, valente!
Ostento a rebeldia,
Mas faço poema
Nos veios da poesia.
Muitas vezes sou lágrimas
Nos braços do amor.
Sou ternura, esperança...
Por vezes, sou criança!
Acabo de descobrir
Quem eu sou!
UMA CRIANÇA!
(Genaura Tormin)
CREPÚSULO
Sombras rendilham o chão
Em desenhos sonolentos.
São bandeiras ouriçadas ao açoite do vento,
Às carícias incandescentes do sol poente.
Os últimos lampejos abraçam a terra,
Coroando-a de fímbrias prateadas,
De indescritível policromia!
Antes de fechar a porta do dia,
O céu se veste em traje de gala,
Borda a terra de afagos fraternos,
Laivos de ternura...
Nesse ritual, a alma canta,
O astral se levanta,
E Deus se mostra na beleza do universo!
SÍNDROME DO NINHO VAZIO
(Genaura Tormin)
Na primavera nasceu a nossa filha, linda, sadia, uma flor!
Um sonho realizado, o meu corolário de amor.
Arrumei o cabelo, maquiei o rosto,
E vesti um penhoar bordado de vermelho
Para conhecê-la no berçário,
Embora já trocássemos carinhos diários.
O coração batera forte e o meu ser se enternecera.
Sem poder conter o pranto, postei-me a agradecer.
O meu presente era ela: o bebê mais lindo daquele dia,
Feito de amor, com as fímbrias da alma em harmonia,
Sob a guarda do coração enamorado.
Da primeira palavra, eu não posso esquecer.
Quando a descobri de pé, sorrindo para mim;
Os primeiros passos, o primeiro dentinho...
Ah, isso, nunca esqueci, até parece que estou a ver.
E a vida virou uma eterna primavera, cheia de anjinhos.
Mais três irmãozinhos vieram para nos fazer companhia
E encher a nossa vida de alegria.
Uma árvore cheia de passarinhos!
Lembro-me do primeiro dia de aula, da palavra MAMÂE,
Desenhada com a sua letrinha, das redações, dos poemas,
Das bonecas nas casinhas... E dela, como professorinha,
A ensinar aos irmãozinhos com tanto carinho.
Do sucesso na escola, dos passeios de veraneio,
Do papai Noel que dava moedinhas...
Entusiasmados, eles guardavam nos cofrinhos.
Que alegria era a nossa família!
Depois, eles cresceram: faculdade, bacharelado...
E nós torcíamos a cada vitória, chorávamos nas formaturas,
Nas aprovações de concursos,
Nas investiduras de cargos...
Sentíamo-nos também vencedores,
Pois a felicidade dos filhos sempre foi a nossa realização.
E como esses filhos cresceram!
Em tamanho e em valores, fazendo-nos felizes.
A cada ano, um deixava o aconchego do lar,
Para o próprio caminho palmilhar,
Ao lado de um grande amor.
Até que o último pássaro alçou seu voo.
O ninho ficou vazio, a árvore solitária...
Desapareceram as risadas, as conversas,
O afeto gostoso de todo fim de tarde.
Esconderam-se, feito estrelas em noites de chuva.
Tudo ficou triste, nem a lua restara por companhia.
Somente saudades daquele convívio, daquela alegria...
Agora, a "síndrome do ninho vazio".
Um tédio ambulante passeia pela casa,
Os ecos se formam pelos cantos em soluços inaudíveis.
As camas sem hóspedes, sem donos...
As luzes não se acendem mais.
Tudo ficou desnecessário!
Falta a alegria, falta o vozerio...
Há um gosto de saudade impregnado no ar.
À mesa, as cadeiras desocupadas
Parecem encharcadas de abandono.
Os talheres não mais têm vida.
Não tamborilam sobre a mesa.
Tudo se resumiu a dois lugares marcados.
Justamente como no início: eu e seu pai.
Hoje, mais experientes,
Pois superamos as dificuldades,
Vivenciamos a dor e encaminhamos vocês
Na trilha do bem, na trilha do amor.
Resta-nos o sentimento de dever cumprido.
Embora longe dos nossos cuidados,
Do nosso carinho, do afeto diário,
Sempre seremos nós os pais de vocês.
(Genaura Tormin)
ESCRITURA DO TEMPO
Sou fera ferida!
Acuada pelos preconceitos,
Cavalgo no dorso da vida.
Rasgo sonhos para engendrar versos.
Alongam-se pelejas.
Cálida, ainda estou
A semear afeto e lágrimas.
Escritura do tempo,
Vou registrando os dias.
De instantes vazios
E certezas incógnitas
Reconstruo a vida,
Teço a síntese de saudades fugidias,
Argamassa dos meus sonhos
E guardo no peito
A exegese do que sou.
No rosto,
O sorriso, a coragem
E o encantamento de viver.
Em estado de paixão
Tento superar as perdas
E o amor ainda se faz em mim.
(Genaura Tormin)
PROTÓTIPO DA FELICIDADE
A distância edifica o amor!
Prova a sua importância,
O lugar cativo no coração.
Pode, também,
Consolidar o fim,
Lanhar a emoção.
Na dúvida,
Nunca diga adeus.
Tente outra vez!
Resista ao sentimento.
A esperança não pode partir.
Abra seu coração!
Deixe o afeto emergir.
Cante por todas as mágoas,
Por todas as dores...
As portas se abrem sempre.
Não se aprisione às que se foram.
O amor é imprescindível.
É alento, tormento,
Dinâmica do existir.
Sua falta machuca,
Diminui a autoestima,
Abre crateras, provoca feridas...
Ame,
Mesmo que seja em sonho!
Encontre pessoas queridas.
A fantasia faz parte!
É o protótipo da felicidade!
(Genaura Tormin)
GOIÂNIA É O MEU LUGAR
Minha cidade, Goiânia,
Esculpida no meio do cerrado,
Entre montanhas e vales,
Na região do planalto,
No centro de Goiás,
No coração do Brasil.
Cidadã do mundo,
Goiânia é varonil.
Sua gente é solidária, hospitaleira,
De sorriso franco, alegria brejeira,
Que cultiva o afeto, a cordialidade...
Por isso tem todas as idades,
Todos os sotaques e naturalidades.
O Brasil inteiro se encontra aqui,
Onde a esperança se multiplica
Num crescimento harmônico,
Com todas as vocações de progresso.
A biosfera se debulha em festa
E o céu de nuvens viajeiras,
À noite, veste-se de estrelas,
Para colorir os sonhos dessa gente guerreira,
Desse povo feliz, entusiasmado,
Que mostra a sua cara na economia,
Na arquitetura, no esporte,
Na gastronomia,
Nas ciências médicas,
No lazer e nas artes.
Aqui, filosofa-se a natureza,
Com amplas avenidas arborizadas
De ipês floridos, palmeiras imperiais,
Flamboyants e flores demais.
Uma “cidade jardim”!
Lagos e chafarizes enfeitam-se de sorrisos,
Onde crianças brincam ao vento,
Num clima ameno e saudável.
A qualidade de vida é marco de felicidade.
A ordem aqui é AMAR!
Essa é a minha cidade,
O meu lugar!
(Genaura Tormin)
ALMAS GÊMEAS
De quantas existências
Somam o nosso passado,
Nesse amor cumpliciado
No vagar do tempo?
Já fomos namorados,
Amigos, parceiros, ferrenhos desafetos.
Enfrentamos tantas dificuldades,
Tantos desafios,
Na busca da eterna felicidade.
Já foste meu pai,
Meu algoz, meu patrão,
Meu capataz,
E até meu irmão.
Em todas as existências
Lá estávamos nós juntinhos,
Aparando arestas,
Consertando falhas,
Assimilando lições
Para assumirmos outras missões.
Já fui tua mãe,
Tua professora,
Tua empregada,
Tua prisioneira...
Já fui tua amante apaixonada.
As experiências foram se somando,
Para nos fazer crescer.
Foste o meu guia,
Pois cega, eu já vim um dia.
Foste meu médico, meu enfermeiro
Cuidadoso e paciente,
Quando numa dessas existências,
Aqui cheguei Deficiente.
Somos almas gêmeas!
Eis-me de novo ao teu lado
Em busca de mais um aprendizado.
(Genaura Tormin)
SOU TODA ALEGRIA
Sou sonhadora!
Vivo fantasias,
Faço poesias...
Rimo um gorjeio de pássaro
Ao barulho da ventania...
Assim,
Sou toda alegria!
Canto o amor,
Defendo a harmonia.
De tudo,
Sou aprendiz.
Colo metáforas,
Faço catarse
Num risco de giz.
O que importa
É ser feliz!
(Genaura Tormin)
SEXULIDADE DA PALAVRA
Dispo-me!
Mostro-me inteira.
Erótico está o coração.
Palavras quentes,
Fortes, emocionadas,
Desfilam faceiras,
Substituindo a forma desfeita
De um corpo mutilado.
No leito nupcial,
A poesia faz a festa!
Enrosca-se no orgasmo compartilhado.
A libido viaja pelo pranto,
Pelos compartimentos secretos,
Na verve do querer ouriçado.
Exponho minha nudez poética!
Faço amor,
Na sexualidade da palavra,
Que arqueja
Em carinhoso diálogo,
Dando forma, essência e vida
Ao ato sublimado.
(Genaura Tormin)
ISSO É TER ALEGRIA
Alegria é estar vivo,
Integrando o universo,
Ter uma família,
Fazer um verso.
É ter um lar, um amor,
Cultivar uma flor...
É ter uma digna ocupação.
Ser honesto, praticar o bem,
Ter amor no coração.
É poder renascer a cada dia,
Ter sonhos, ter harmonia.
Marcar o trajeto com bonança,
Encantar-se com o sorriso da criança,
Acreditar no porvir,
E ter esperança.
Alegria é ter o coração aberto,
Sincero, sensível, enamorado.
É extasiar-se diante da vida,
Da natureza florida...
É ouvir uma música,
As baladas do vento no temporal,
O zumbido das abelhas,
Os refrulhos sonoros de um riacho...
Uma declaração de amor.
É ser valente, ser contente,
Livre para agir.
Saber que Deus está presente.
É poder servir!
Ver o céu bordado de estrelas,
A lua a vagar no firmamento,
A terra molhada, a passarinhada...
É ter coragem, ter sentimento.
É poder correr pelas colinas,
Soltar pandorgas ao vento,
Subir às árvores,
Perseguir cometas e arco-íris,
Fazer poesia,
Falar de encanto, de magia,
Cantarolar um hino de paz!
Isso é ter alegria!
(Genaura Tormin)
MINHA IDADE
Tenho a idade do amor!
Os números não me interessam.
Conto sempre os prazeres,
Os momentos de alegria,
Paz, saúde e harmonia.
Jaz em mim,
Em doce letargia,
O meu tempo de criança,
Os natais adocicados,
A natureza em festa,
Alcatifada de flores,
Na dança das borboletas.
O céu, vestimenta do tempo,
Sempre cheio de fantasias,
Onde os sonhos se aninhavam,
Fazendo a minha alegria.
Tempo bom e bem vivido!
No canto do coração,
Guardo todos os amores,
O prazer de cada encontro,
O gosto de cada beijo.
Essa é a minha idade!
Verde como a esperança,
Que enfeita o fruto maduro
Dos anos que já vivi.
(Genaura Tormin)
SE EU QUISESSE...
Se um dia
Eu quisesse te esquecer,
Não poderia.
Se eu pudesse,
Jamais quereria.
Porque eu te amo tanto,
Que sem ti,
O sentido de viver
Perder-se-ia.
Quando estou sozinha,
Tu me vens à mente.
E vens lindo,
Sorridente e provocante.
E, a cada vez,
Estou te amando mais.
Se é loucura,
Eu amo essa loucura,
Juro, juro!
Prefiro ser louca,
E te amar sempre,
A ter um coração vazio
E um desejo interminável de viver,
E ver passar em brancas nuvens,
Essa loucura linda
Que me escraviza o peito.
Por isso,
Eu te amo muito.
E a cada vez mais,
Sinto que se agiganta em mim
Este desejo sem limites
De te querer demais.
(Genaura Tormin)
FILHO MEU
Qual semente em terreno fértil,
Foste plantado,
Num ato de amor sublimado.
Carreguei-te no ventre por muitas luas,
Muitas manhãs de mistérios...
Amei-te com todas as forças do meu coração.
Éramos unos, cúmplices.
Dei-te a minha vida!
Alimentei-te com a seiva do meu ser,
Do meu carinho,
E agradeci ao Criador de Vidas.
Era eu a mais feliz das mulheres!
No final de um domingo de março,
Vieste ao mundo em meus braços.
Pude ver teus olhos brilhantes!
Uma vida em minhas mãos!
Esculpi na alma a história de nós dois,
E hoje a decanto em versos,
Rimas de felicidade,
Por sermos mãe e filho
Nesse mistério da eternidade.
O tempo passou veloz,
Tornando-te um homem.
Os anos desnudaram-te os muitos valores!
Quanta dignidade!
E agora, qual ave de arribação,
Com o teu próprio vôo cruzas o espaço!
Demarcas o território
Para carpir sonhos e plantar amores.
Estás mais longe, além do horizonte.
Nos rigores do tempo, no frio das madrugadas,
Talvez não possa secar-te as feridas,
Aconchegar-te no calor das minhas asas,
Ou as alegrias contigo festejar.
Mas vives no meu coração, no meu pensamento,
E em todos os momentos,
Entrego-te a Deus, FILHO MEU!
(Genaura Tormin)
ABRACE-ME!
É agora,
Quando menos mereço,
Que preciso desse silêncio,
Desse querer cumpliciado
Para secar-me o pranto,
Abrandar-me as falhas.
Silêncio é prece,
É carinho dividido.
É o amor que exalta,
Que perdoa no gesto do sorriso,
Nos braços que amparam...
É disso que preciso.
Significa grandeza,
Espírito evoluído.
Não me deixe sangrar,
Não me deixe sofrer!
Tenho tantas feridas!
Muitas, ainda exangues
Ao escárnio da vida.
(Genaura Tormin)
ESTRELA-GUIA
Minha mãe!
Como sinto a tua falta!
Há muito não habitas na terra,
Embora tua imagem etérea
Viva no meu coração.
A gente nunca pensa que as mães podem partir,
Mudar-se para outra dimensão.
Hoje também sou mãe.
Sei como dói um filho ausente.
Teus olhos azuis, o sorriso grande,
Tento encontrar por onde ando.
É dolorido confirmar a todo instante,
Que não estás aqui.
Perdoa-me pelas ausências,
Pelas vezes tantas que te magoei,
Pelos sonhos quede ti roubei...
Eras e ainda és a minha estrela-guia!
“SEGUE, FILHA, QUE MUNDO É TEU!”
Como a dizer que o destino a gente cria,
Fazendo-me seguir com alegria.
É acalento a possibilidade
De ir ao teu encontro qualquer dia.
Os anos avançam,
E mesmo de cabelos brancos
Sinto-me criança.
Resta-me a esperança
De ainda poder deitar-me em teu regaço,
Esconder-me nos teus braços,
E deixar rolar o pranto.
(Genaura Tormin)
ACALANTO PARA ISABELLA
A chuva ainda molhava a terra,
Exaurindo o cheiro de relva,
Quando o dia chegou colorido, risonho.
A tarde se fez amena, se fez terna...
Nas asas do vento, no colo da brisa,
Chegava a Isabella, a bela Isa,
A filha da minha filha!
A minha neta!
Uma centelha divina do amor,
Um botão em flor.
Palavras inexistem.
São arcaicas, obsoletas.
Só as lágrimas afagam sentimentos acalentados
No silêncio etéreo de um sonho tão bonito.
Uma visita antecipada de um anjo querido,
Prestes a sair do paraíso
Para fazer parte da nossa família.
Doce personagem onírica,
Onde a inocência desenhava-lhe o rosto redondo e puro
A balbuciar pequenas palavras.
Desde então,
Na ânsia da espera,
Fiquei a vê-la no espelho do meu coração,
Na gostosura de sabê-la neta,
Estrofe do meu poema,
Lira de minha canção.
O sonho virou realidade!
Chegou a Isabella!
Um anjo/criança, uma flor de açucena,
Uma menina pequena!
E entre panos,
Pude ver a estampa doce de gentinha miúda,
Qual novelo de lã, floco de algodão...
Imagem tão bem guardada
Nas minhas retinas e no meu coração.
Esgueiram-se dançarinos,
Murmúrios de felicidade,
E eu posso mirar-lhe os olhos,
Dois faróis, dois luzeiros,
De paz e alegria, mensageiros.
(Genaura Tormin)
A VIDA É CÍCLICA
Tudo repassado!
Valores, saberes,
Crenças e amores.
Missão cumprida!
Somos agora
Desnecessários.
Uma referência do passado.
Uma saudade de um tempo.
Pássaros/filhotes
Cresceram!
Esgarçaram as asas,
Dimensionaram espaços,
E alçaram vôos.
Partiram para alcançar metas,
Realizar sonhos,
Conquistar divisas!
Tudo se renova,
Renasce e floresce.
A vida é cíclica.
Resta o aprendizado
Para escrever a historia,
Deixar o legado.
(Genaura Tormin)
AMOR CONSCIENTE
A vida se conta pelos anos,
Pelas experiências...
Pelo plantio e pela colheita...
É uma construção em terreno árido.
O arroubo da paixão
Dispersa-se pelo caminho,
Em retalhos esquecidos,
Levado pelo temporal.
Em troca,
Um amor maduro,
Consciente.
Companheiro,
Alicerçado
Em cuidados, respeito,
E muito aconchego.
Encanecem os cabelos,
Muda-se a silhueta.
Mórbidos,
Arquejam os desejos.
A labareda já não existe,
Apenas a brasa moribunda
Continua alerta, de sentinela.
Pela janela,
O horizonte tão longe,
Tão distante,
A esculpir a história
De um GRANDE AMOR.
Um filme para reviver!
(Genaura Tormin)
POEMA LIBERTO
Presos
Ao lado do coração,
Ressoam badalos,
Fragmentos de versos,
Arco-íris perdido,
Desejos conturbados,
No peito da agonia.
Insanos,
Esbaforidos,
Querem sair,
Extravasar a lira...
Em alforria,
Mostrar-se ao mundo,
Fazer a poesia,
Cantar a liberdade,
A alegria.
Em signos,
Crio-lhes pontes,
E os dedos ágeis tamborilam
Sobre o teclado,
Dando passagem triunfal
Ao condenado.
Abrem-se as férreas grades,
E o poema ainda amedrontado,
Eclode em liberdade.
(Genaura Tormin)
NEM LUZ TERÁ
OS OLHOS MEUS
Um dia me cansarei
De ver a tua imagem translúcida
Impregnada no espelho
Do meu coração.
Um dia,
Quando a ternura não mais existir,
E a alma congelar-te
Na janela dos sentimentos,
Eu juro,
Apagarei a tua face em mim.
Os olhos não mais procurarão os teus.
O espelho não terá luz.
Nem luz
Terão os olhos meus.
Eu sei que apagarei,
E um vazio imenso povoará o mundo,
Rasgando as veias lassas do peito.
Mas,
Também num dia frio,
Evocarei a tua imagem indelével no tempo.
Reconstruirei o teu esboço
E o secarei com um sopro quente,
Legado que restou de mim
Para fazer-te meu, ainda.
(Genaura Tormin)
FAUNA DOS SONHOS
O tempo levou-me os sonhos,
Tantas esperanças,
Retratados em desejos mil,
Na fértil imaginação de criança.
Como era feliz e não sabia!
Sem máscaras, sem disfarces...
Apenas eu mesma: sorriso escancarado,
Correndo ao vento,
Aos píncaros dos folguedos do meu tempo.
No céu talhado de nuvens, bordava as fantasias
Com os flocos dançarinos de algodão.
E as mágicas aconteciam,
Em carruagens, reis e rainhas,
Príncipes e lagos encantados.
Foram-se os anos, tão rápidos, tão velozes,
Até que me descobri adulta.
Vi, com tristeza, que o sol radiante
Havia mutilado as nuvens,
Os flocos de espuma, a fauna de sonhos,
Esconderijo dos meus desejos.
Em troca, restaram-me meras coisas,
Sem formas, vazias,
Dispersas em fumaça, em dores,
Que poluíram o azul de minha vida.
O horizonte, nem sei se existe mais.
Quisera ter impedido o sopro do vento.
Quisera ter retido as nuvens do meu tempo.
(Genaura Tormin)
RESTANTE
Você partiu!
Os sonhos feitos de espuma,
Entristeceram a madrugada.
Dispersados pelo vento,
Encobriram as estrelas,
Macularam o afeto.
A saudade fria
Revirou o mundo,
Jogando na noite
Tudo o que fiz para lhe dar.
Mandei parar o vento,
Pedi ajuda à brisa...
Nada adiantou
Porque o amor se petrificara
Em mundos distantes.
Voltei sozinha!
Restou-me noite, solidão
E um verão de lembranças.
De lágrimas,
Fiz um presente dourado,
Confeitei-o de esperanças,
De saudades...
Guardei-o no canto do peito
Para endereçar um dia,
Se o amor
Não se olvidar no tempo.
(Genaura Tormin)
VIDA DE TANTAS SAUDADES
A fazenda era cortada por um brejo.
Lá a vegetação nativa era mais verde e mais viçosa.
As palmeiras de buriti, guariroba e macaúba
Desfraldavam-se feito bandeiras hasteadas
Sob a paz de um céu de anil.
Eram os espigões do santuário ecológico,
Adornado pela presença e aroma dos brancos lírios,
Das vertentes de água cristalina
Que murmuravam na dança das cascatas.
Ali, a natureza debulhava-se em sacrários.
A cada passo, o descortinar de novo palco a céu aberto.
As garças brancas, em acrobacias teatrais,
Sobrevoavam a morada.
O rouxinol fazia a orquestração.
Até o joão-de-barro podia ser visto
No seu árduo trabalho de fabricar a casa:
O ninho trançado com esmero,
Em perfeito artesanato.
Os últimos raios de sol,
Filtrados pela folhagem dos coqueirais,
Permeavam os pequenos alcatifados de flores,
Emprestando ao lugar uma santidade maior.
Assim, guardo,
Como marco de ternura indelével,
Os dias que lá se foram do meu tempo de criança.
Lembranças de minha vida,
Vida de tantas lembranças!
(Genaura Tormin)
SE EU MORRER AMANHÃ
Se eu morrer amanhã,
Nenhuma lágrima,
Nenhum lamento.
Não chore a minha ausência,
Não sinta a minha falta.
Indesmanchável,
Restará a imagem distorcida,
Desse viver sofrido,
Dessa passagem pela vida.
Se eu morrer amanhã,
Não levarei nada.
Só a alma leve e solta,
O coração sombrio
E o dever cumprido.
E mais uma vez,
Sob a egrégora do tempo,
Seguirei outros caminhos...
Mesmo assim,
Ainda estarei por aqui,
No silêncio da noite,
No canto da cotovia,
Para te fazer companhia,
Não te deixando esquecer
De que fui tua um dia.
(Genaura Tormin)
QUANDO EU CORRIA
Quanta saudade eu sinto!
Da terra molhada,
Da relva verde,
Do sol queimando meus pés ligeiros,
Faceiros,
Pela vida afora.
Das ruas compridas,
Pulando corda,
Jogando bola,
Andando à toa
Aonde o tempo voa.
Ativa e forte,
Correndo ao vento,
Mesmo ao relento
Da chuva fria,
Dos pedregulhos
Pontiagudos.
Quanta saudade,
Invade-me agora!
Quanta ironia!
Relembro tudo.
Até do canto da cotovia.
Do céu azul, do pôr-do-sol,
Das tardes quentes daquele tempo.
Tropeços mil,
Que maravilha!
Burilou-me o ser,
Esculpiu-me a alma,
Fazendo-me assim.
Já não tenho pernas
Para te andar,
Ó caminho,
Pés pra te fazer carinho!
Relvas,
Pedras,
Houve o extermínio.
Agora,
Posso apenas ver,
Pensar, relembrar,
E à noite sonhar correndo
Pelos gramados,
Pelas colinas,
Cavalgando,
Subindo às árvores
Como fazia outrora.
Oh! Saudade daninha,
Que me esfacela o peito!
Mata-me, às vezes,
Pra que eu renasça,
Cada vez mais forte.
Afinal,
Tenho a mente,
Que samba,
Corre,
Cavalga,
Faz rastros pela existência
E ameniza
As intempéries da estrada.
(Genaura Tormin)
MAROLA, VELEIRO E VENTO
Céu azul,
Mar revolto,
Alcatifa dos sonhos meus!
Viajo no galope da saudade.
Volto no tempo!
Cheiro de maresia,
Marolas, veleiros...
Vento cantarolando
Na copa dos coqueiros...
O verde da esperança,
E eu, feito criança,
Correndo pela branca areia,
Às carícias das brumas fugidias,
E ao som da ventania.
Ah, eu era só alegria!
As ondas quedavam-se
Ante os pés andejos, dançarinos.
Em coro,
Pássaros entoavam hinos,
Em coloridos gorjeios.
O céu bordado de nuvens viajeiras.
Uma tela de rara beleza,
Numa manhã fagueira.
Hoje,
Desnudo de adereços,
O vento ainda canta para mim.
Parece que ouço o rumorejo,
Daquele vento gostoso,
Que me bordava de beijos.
(Genaura Tormin)
FAXINANDO A ALMA
Que o coração não guarde rancor.
Que o sorriso seja sincero,
Terno e verdadeiro.
Que as intempéries do caminho
Signifiquem lições de vida,
Degraus para o progresso.
Que a música seja a paz
Para os encontros com Deus
E com nós mesmos.
Que floresça sempre
A criança que há em nós.
Que os amores contenham magia,
Encanto em cada encontro.
Que os olhos possam mirar a vida,
Dispostos a multiplicar o bem.
Que a cada amanhecer,
Seja sempre um novo recomeço,
Onde alma dance na luz,
Na harmonia...
Na alegria de viver.
Que em cada contato,
Em cada diálogo,
Fiquem as marcas benfazejas
De novo aprendizado.
Que nos momentos de solidão e cansaço,
Esteja sempre presente
A certeza de que tudo passa,
Tudo se renova...
Que o coração voe contente,
Para que o amor floresça
Apascentando o espírito,
Renovando as energias,
A força e a fé.
Que a brisa da bondade
Seja a parceira inseparável.
Que os pensamentos equilibrados
Sejam o comando da jornada.
Que o amor seja a meta,
A tramontana, a estrela-guia,
No galope da existência.
Que as trevas transformem-se em luz,
E os trôpegos passos,
Em alegre dança renovadora.
Somos guerreiros!
E na aljava, o amor,
A justiça e a felicidade.
(Genaura Tormin)
REBELDIA
Rebelde e ousada
Sigo a minha estrada.
Não aceito cabrestos, nem peias.
Sou leve, livre e solta.
Não me subjugo,
Não me quedo a cadeias.
Nasci assim e o serei até o fim.
Peco, muitas vezes.
Não sou perfeita!
Reinicio sempre!
Tentar é o meu lema!
Tenho que experimentar
Para evoluir
Não sou anjo,
Nem demônio.
Sou mulher!
Guerreira por excelência,
Exibo a minha essência.
Faço a hora,
Confesso a minha culpa,
E escrevo a história.
(Genaura Tormin)
MESMO SEM NOÇÃO
Abro minhas comportas, deixo jorrar a dor.
As asas cansadas, quedam-se apáticas
Num lugar qualquer.
Sem noção, rumino pensamentos,
Vasculho cantos, abro gavetas,
E faço versos coloridos da tristeza que restou.
Sem noção,
Colo os poemas nos troncos das árvores,
Nas asas das pandorgas viajeiras,
Nos muros dos casarios
Para não me olvidar no tempo.
Sem noção,
Quero a exegese do silêncio,
O cancioneiro do Apocalipse,
O veneno e o remédio.
Sem noção,
Quero o grito bramindo mares,
O assobio da ventania,
A despedida da dor,
Na amostragem da alegria,
No canto da felicidade,
Para ostentar o amor.
Mesmo sem noção,
Optei pelo melhor.
(Genaura Tormin)
REDE NEURAL
Há mutações,
Autoconhecimento,
Na esquina do tempo.
Na visão de nós mesmos,
Há um mar de sinapses,
Em bites imersos,
Sensorialmente conectados.
A mente em sintonia
Cria o Universo.
Não há dogmas!
Num conceito de Unidade
O pensamento é tudo,
Absoluto.
É ensaio mental,
Força propulsora
No lóbulo frontal,
Altaneiro e soberano
Na rede neural
Do Ser Humano.
(Genaura Tormin)
MINHA PORTA NÃO TEM CHAVE
Minha porta não tem chave!
Minha vida não tem segredos.
Escancaro todos os medos,
Fantasmas e desejos
Nos varais dos versos meus.
As portas são fetiches,
Ouriçam-me a curiosidade
Para desbravar o invisível,
Ouvir o inaudível.
Por isso eu avanço sempre,
Sinto-me contente
E sigo em frente.
Faço catarse,
Rasgo imagens,
Lamento as dores
E canto os amores
Nos recônditos de muitas portas,
Nesse vagar do tempo
Que a vida me concedeu.
(Genaura Tormin)
O AMOR ARQUEJA NO TEMPO
A inteireza da felicidade,
Essa pulsão incontrolável,
Consome-me aos poucos.
Envolta em mistérios,
Quero um amor romântico,
Mesclado de paixão,
No enlevo de saudades.
A transcendência
Ficou no passado.
O pranto, o encontro,
Em bites mascarados,
Não têm o mesmo encanto.
Os elos se partiram.
Não há ancoradouro,
Apenas uma amplidão a ermo...
Perdeu-se a unidade
Em aventuras passageiras.
Em cacos,
O amor arqueja
Na enfermidade do tempo.
(Genaura Tormin)
PALAVRA
Palavra,
Liberdade sonora,
Farol que alumia
A essência da vida.
Alumbra a fantasia,
Acalenta a alma,
Voeja paraísos intocáveis.
Ingênua, despida,
Enfeita-se de sonhos,
De magia e lógica.
Em vôos azados por signos,
Mostra-se cativa ou soberba.
Em roupagens lúdicas,
Provoca sorrisos,
Alinda o amor.
Pode lanhar o coração,
Vestida pela dor.
Nave dos sentidos,
Transporta a exultação do belo,
A contemplação do silêncio inaudível,
Encapelado por dores guardadas
Nas águas revoltas do existir.
Palavra,
Canto órfico que se transmuda,
Esgueira-se em harmonia
Pelo cosmo, pelo infinito...
E o amor se faz
Nos eitos de palavras soltas,
Regadas por lágrimas,
Plantadas ao açoite do vento,
À luz primeira de um amanhecer risonho.
(Genaura Tormin)
E O VENTO NÃO LEVOU MESMO!
Um tornado arrancou portas,
Matou sonhos, abalou desejos,
Revirou a casa, modificou costumes...
Levou os passos andejos.
No canto da vida, tudo quebrado,
Esfacelado no peito da agonia.
Sem conserto para tanto desmantelo,
A tristeza fazia companhia.
Mas o tornado passou!
E o vento não levou a bravura,
A coragem para reconstruir,
Reinventar passos, alar a mente,
Conquistar vida e seguir em frente.
E o que era uma casinha,
É hoje um castelo à beira da estrada,
Cheio de versos, de alegria,
Na fantasia da jornada.
(Genaura Tormin)
TENHO O CORAÇÃO EM FESTA
É manhã aqui!
Um gosto de aconchego
Ainda me enlaça a cintura.
Teu rosto em mim esculpido,
Estampa-se em tudo que vejo.
O nevoeiro cobre a colina
E acaricia-me a pele,
Ainda molhada pelos teus beijos.
Envergonhado,
Nasce o sol no horizonte.
Sonolento,
Rompe brumas e escarpas,
Boceja intimidades,
Com gosto de fruta madura.
Solfeja votos de bonança,
Bordando a copa do arvoredo
De raios multicores.
Canta para me açoitar o medo,
Acalentar tantas juras,
Guardadas aqui no peito.
Há uma sinfonia no ar.
Os pássaros saltitam nos galhos.
Parecem me saudar.
Tenho o coração em festa.
É místico poder amar!
(Genaura Tormin)
SENTIMENTO INCÓLUME
O sentimento,
Guardião do tempo,
Ainda está incólume
Na cela do peito.
Um gosto de saudade
Impregna a vida.
A solidão se faz!
Paira no ar a indiferença.
Parece desconhecido o lugar,
Ermo, esquisito, sombrio...
E a casa está vazia
A sangrar um silêncio doentio,
Um tédio ambulante
Que mata a fantasia.
Fecham-se portas e janelas.
Quebra-se o encanto.
Fragmentada,
A emoção escapa,
Plangendo os cantos da alma
Onde,
As sombras encolhidas
Entreolham-se estáticas
No sarcasmo do tempo.
(Genaura Tormin)
RELÓGIO MALVADO
Ontem,
Fiz-te a última poesia.
Falei tanto do meu amor!
Ontem,
Ouvi tua música preferida
E tua imagem se fez profunda em mim.
Mergulhei
Em cada canto do teu corpo
E me deixei ficar,
embriagada
Na ternura dos teus braços.
Ontem,
Tive o prazer de ter-te ao meu lado,
No tapete verde de um gramado;
No êxtase sem fim
De beijos e abraços,
Em que éramos as vítimas
De um amor cumpliciado,
Astuto,
rebelde
E ouriçado.
Quando explodia em mim o coração,
E o sentimento
Sem amarras me vencia,
Eis que o despertar do relógio no criado
Devolve-me à realidade,
Quando pude perceber,
Que apenas,
Havia eu SONHADO.
(Genaura Tormin)
PAR DE TÊNIS
É um par de tênis velho,
Surrado,
Desbotado,
Que tenho guardado.
Aguça-me a memória,
E eu volto ao passado.
Seu solado gasto,
E a forma encarquilhada,
Relembram-me as batalhas.
Era o coadjuvante,
O suporte da minha teia,
Na disciplina da vida,
No ir-e-vir lépido e faceiro...
Era o enfeite preferido
Dos meus pés andejos,
Que bailavam em
Passos apressada, lenta,
Jocosos, manhosos...
Quantas divisas,
Quantas conquistas!
Hoje,
Meu par de tênis,
Quieto no armário,
Ainda me espreita de soslaio,
Contando a minha história,
Reclusa no relicário,
Deste peito que ainda chora.
(Genaura Tormin)
UM ANJO CHAMADO LUÍSA
Minha querida criança,
Quanto tempo te esperei!
E foi no outono, estação das flores,
Que chegaste devagarzinho,
Para ser flor do nosso jardim.
Quanta emoção, quanto carinho
Enfeitaram essa espera!
E quanta crença,
Quanta esperança há
No teu porvir risonho!
Hoje,
Vejo o brilho do teu olhar,
Feito luz a nos guiar!
Posso ver os teus cabelos negros,
O rostinho meigo,
O bailado das mãozinhas tenras,
Ao sabor da brisa.
Trazes determinação e coragem,
A canção da vida,
O viço e a fragrância da rosa,
Por isso, o teu nome é LUÍSA,
“A guerreira formosa”!
Para mim, és talismã,
Uma alma irmã,
Verdade mais pura,
Transcendência sublimada
Do amor e da ternura.
Faço-te verso do meu poema,
Lira da minha canção,
No balanço de tanta emoção.
És um presente dos céus!
És um anjo de candura,
E eu tive a graça maior
De ser a tua avó,
A mãe do teu pai,
Afetivamente, a tia da tua mãe.
E isso me alegra o coração,
Matiza o meu bordado nesta vida,
Minha criança querida!
(Genaura Tormin)
RETINAS DA VIDA
Codificado,
Em partituras indecifráveis,
Está o coração.
A palavra não vem
E as teclas do poema,
Em desalinho,
Escorrem em ambigüidades.
O silêncio é solidão,
Um escudo,
Um esconderijo,
À espera de proteção.
A ordem é recriar,
Fantasiar e seguir!
Na defesa,
A imaginação demente
Escorrega por dédalos confusos,
Acordes desconexos,
Versos inacabados,
Grafados nas retinas da vida.
(Genaura Tormin)
PRIMAVERA
Campos floridos, relva verde, vida nova!
A natureza em festa no oráculo das manhãs.
O sol chega atrevido, faceiro, bonito,
Alumbrando os restos de madrugada.
E o vento assobia dengoso,
Acordando as flores sonolentas.
Tudo renasce!
Tudo se transforma!
Realizam-se sonhos,
Bordam-se flores,
No caminho sulcado dos amores.
Ventos macios, coloridos,
Com gosto de bonança,
Esvoaçam os cabelos da manhã,
Perfumando rios e matas.
O riacho marulha um canto de paz.
O amor se faz!
Tudo se agita, se multiplica,
Ganha vida, viço e cor,
Enfeitado pelos gorjeios da passarinhada,
Pelo zumbido das abelhas,
Pelo incansável trabalho das formigas.
Tudo renasce,
Cresce e aparece no círculo da vida.
A natureza se multiplica em berços...
Em rebentos alvissareiros,
Nos canteiros dos jardins,
E nos olhos que há em mim.
Nos meus cantos,
Também é primavera.
Escondo-me na semente,
Transmudo-me na alegria de viver.
(Genaura Tormin)
Genaura Tormin é o meu nome. Já vivi meio século! Conheço bem a jornada! Sou canceriana! Nasci ao amanhecer de um domingo de julho, embalada pela sinfonia do vento e pelo cantar dos pássaros.Forjada por dificuldades, acredito-me forte. Trago na bagagem muitas cicatrizes. No coração, um nascedouro de paixões e um encantamento por essa vida tão maravilhosa, embora, às vezes, tão sofrida.
Para mim, fazer poesias, falar de amor é a expansão da minha sensibilidade. É o meu interior, o meu coração, o meu Deus interno estampados em folhas brancas de papel. Em versos vou levando a vida, desnudando anseios e deixando jorrar todas as emoções de viver. No meu caminhar tenho pressa. Vivo o hoje, o agora. Sou poeta!




















































